Mulheres assumem protagonismo no universo do vinho na Serra

Por Léo Prado 11 Min Read

— Era bem estranho chegar numa degustação e ter três mulheres e 25 homens. Era estranho, mas era o normal. Hoje isso já mudou, já tem um equilíbrio um pouco maior.

A constatação da enóloga Marcia Gujel, 40 anos, é a de muitas pessoas que circulam pelo universo vitivinícola da Serra. A percepção é de que há, atualmente, muito mais mulheres consumindo e produzindo vinhos na região. Talvez não seja a maioria, mas alguns números dão pistas do crescimento da presença feminina neste circuito.

Na vinícola onde Marcia trabalha, a Empresa Brasileira de Vinificações (EBV), de Caxias do Sul, por exemplo, são 15 mulheres entre os 22 funcionários.

É uma atividade vista muito como masculina, mas tem muitas mulheres se desenvolvendo na pesquisa, no comércio, no marketing, na parte técnica
MARCIA GUJEL

— A gente percebe que vem aumentando o posicionamento das mulheres nas vinícolas. É uma atividade vista muito como masculina, mas tem muitas mulheres se desenvolvendo na pesquisa, no comércio, no marketing, na parte técnica. A elaboração do vinho sempre foi uma parte mais voltada para os homens, mas isso está mudando — diz.

Enóloga há 18 anos, Marcia acredita que foi parar dentro de uma vinícola por acaso. Sem familiares produtores de uva e de vinho, atribui ao destino a escolha pela profissão. A colega Camila Rizzotto, 30, também. Engenheira de produção, começou como estagiária na EBV sem saber a diferença entre vinhos finos e de mesa. Foi conquistando seu espaço e, hoje, é supervisora de produção e quase uma especialista em vinhos.

— Cheguei chamando espumante de champanhe. Comecei a aprimorar, degustar vinhos finos e espumantes. Comecei com o moscatel, fui para o brut e hoje tomo os feitos pelo método champenoise — conta.

Embora no setor administrativo, Tatiane Brazeiro, 41, se sente tão “fazedora” dos vinhos quanto como as colegas dos laboratórios e da fábrica. Tanto que quando pega uma garrafa em mãos, logo lê o rótulo para saber quem produziu.

— Normalmente, na área administrativa em outras empresas, o que eu via? Os resultados, muita coisa de número. Aqui não. Parece que a gente tem contato com uma coisa viva. Quando vejo que foi produzido e engarrafado aqui, digo: “olha, foi a gente que fez! Isso é orgulho — alegra-se Tatiane.

Para corroborar a percepção de mais mulheres no universo do vinho, o curso de técnico em Viticultura e Enologia do Instituto Federal de Educação (IFRS) de Bento Gonçalves tem mais alunas mulheres do que alunos homens hoje matriculados. No mestrado, também são mais mulheres. Entre os egressos, de 2011 até agora – dado disponível pelo Instituto – mais mulheres. Bento é pioneira na formação de profissionais do setor. O primeiro curso técnico é de 1959, da então Escola de Viticultura e Enologia.

Gestando vidas e sonhos

Enquanto gesta Valentino em seu ventre, Tainá Zaneti, 34, dá à luz a uma vinícola. Projeto de uma vida inteira, a Madre Terra nasceu neste ano, no interior de Flores da Cunha, e teve os primeiros rótulos lançados em setembro.

O novo empreendimento tem apoio da mãe Isabel e do pai, o ex-deputado federal Hermes Zaneti, maior influência para a filha no processo de criação do negócio, afinal, ele auxiliou na elaboração das leis da uva e do vinho e do preço mínimo da fruta quando foi parlamentar constituinte, além de ter trabalhado na criação da Câmara Setorial da Uva e do Vinho e no Ibravin.

— Lembro de ir na vinícola onde ele trabalhava, do cheiro da uva fermentada, de acompanhar as safras. Fazia parte da minha rotina. Isso se entranhou em mim de uma maneira muito visceral e quando fui decidir a minha profissão, decidi pela gastronomia. Sempre trabalhei com gastronomia e vinhos. Depois, comecei a atuar em pesquisas de gastronomia e vinhos brasileiros. A partir disso, muitas trajetórias me trouxeram até aqui, à frente da criação, do marketing, do branding e de todo o setor de enogastronomia da nossa vinícola – diz Tainá.

As mulheres sempre trabalharam no vinho., mas esse trabalho era invisibilizado, não aparecia
TAINÁ ZANETI

Com a crença de respeito à natureza – não à toa Madre Terra foi o nome escolhido – a família adotou a agricultura regenerativa para os vinhedos na linha São João. São feitas apenas intervenções necessárias a partir de insumos biológicos para causar o menor impacto negativo possível. As abelhas, grandes responsáveis pela polinização, foram até homenageadas nas embalagens que imitam uma colmeia.

Tainá espera que, com seu cuidado e dedicação à vinícola, possa servir de exemplo aos filhos assim como outras mulheres a inspiraram a correr atrás de seus sonhos e objetivos, como estar à frente da empresa familiar que terá ainda outros espaços: restaurante, centro de eventos e hotel.

— As mulheres sempre trabalharam no vinho. Elas sempre participaram da colheita, da pisa, de diversas etapas de produção do vinho, mas esse trabalho era invisibilizado, não aparecia. A grande diferença agora é que a gente assume o protagonismo, a voz, a fala, os processos. Agora a gente tem um protagonismo cada vez maior — reflete Tainá, grávida de seis meses e mãe de Matteo, quatro anos, e Martina, dois anos.

Renascimento pelas mãos de cinco mulheres
Não muito distante da Madre Terra, a cerca de 12 quilômetros, outra vinícola também nasceu em Flores da Cunha. Ou melhor, renasceu. E foi pelas mãos de cinco mulheres. Com 50 anos de história, Murisabel Indústria Vinícola deu lugar à Casa Eva Vinhos e Vinhedos, uma iniciativa das irmãs Alessandra, Karine (que não mora em Flores), Marcele e Francine Muraro e da mãe delas, Maria Inês.

— Era uma vinícola fundada pelo meu avô Alcides, e depois foi comprada pelo meu pai Alberto (ambos já falecidos). Até então, eles produziam vinho de mesa, vinho que ia a granel para o Rio de Janeiro e lá era engarrafado. Começamos a pensar na ideia de vinhos finos durante a pandemia, quando ficou em alta. A gente plantou vinhedos nessa época e, neste ano, conseguimos lançar nossa linha — conta Francine, 42, farmacêutica de formação e apaixonada por vinhos.

A mudança de perfil da vinícola demonstra uma tendência: mulheres mais interessadas em vinhos finos. Francine diz notar um movimento de crescimento da presença feminina seja consumindo, seja produzindo essas bebidas ao invés dos vinhos de mesa. O novo momento da vinícola também exigiu mudança no nome e Eva “casou” com o fato de serem cinco mulheres no comando do empreendimento familiar. Além disso, Eva significa aquela que dá a vida, assim como Francine que está aguardando a chegada de Joana. O bebê pode nascer a qualquer momento. Inclusive, já pode até ter chegado enquanto você lê essa reportagem.

— Apesar de termos trocado o nome da vinícola, mantemos o pai e o avô no rótulo com o “A” de Eva estilizado. É uma homenagem ao nosso pai Alberto e ao vô Alcides, porque foram eles que começaram tudo — destaca Francine.

“Somos empresárias, somos mães”
A sommelier Andreia Gentilini Milan e a enóloga Juciane Casagrande Doro têm uma longa trajetória de trabalho no mundo dos vinhos. Há 20 anos, os caminhos das duas se cruzaram e elas viraram colegas em uma empresa da região. Criaram tanta sinergia que em 2018 se tornaram sócias e lançaram os primeiros rótulos com a marca Amitié – amizade, em francês, para celebrar não apenas a amizade delas, mas de quem fosse brindar com aqueles novos produtos.

O negócio, que começou com cinco espumantes, cresceu e, neste ano, as amigas abriram uma vinícola própria, em Bento Gonçalves, com 30 produtos no portfólio.

— Empreender sempre é um desafio e o fato de sermos mulheres também tem seus desafios. Nós somos empresárias, mães, temos várias atividades, mas isso nunca nos impediu de buscar mais, de querer mais. Somos muito objetivas, temos muita garra, muita vontade, determinação e muita paixão. E a paixão é um elemento fundamental, é o que nos move — diz Andreia, mãe de três meninos de 11, sete e quatro anos.

A paixão se reflete no cuidado com a qualidade dos vinhos e espumantes. Da elaboração até chegar na prateleira, tudo passa por elas para garantir produtos agradáveis ao paladar dos consumidores. As escolhas da garrafa, do rótulo e da embalagem também são fundamentais para Andreia e Juciane.

— Nós decidimos customizar a tampinha da garrafa de um espumante. Usamos um material especial, uma pintura especial, colocamos uma pedra, colocamos o símbolo infinito, que representa a nossa marca, e ficou lindo. Decidimos, então, fazer uma lembrança para o nosso cliente. Então, após você abrir o espumante, em cima da rolha fica essa tampinha e tem um cordão que vai se transformar num colar. As pessoas veem e dizem: “só podia ser feito por mulher” — conta Juciane, mãe de uma menina de oito anos.

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