Distrito Federal se destaca como novo polo vinícola brasileiro

Por Léo Prado 5 Min Read

De pé entre duas fileiras de parreiras, em uma propriedade pequena rodeada pelo Cerrado próxima a Brasília, Jean-Michel Barcelo pega uma uva de um vermelho intenso, a coloca com o indicador na palma da mão e a degusta.

“Acho que há um potencial real neste terroir”, diz Barcelo, um enólogo francês de 52 anos, que visita anualmente como consultor a Villa Triacca, uma fazenda a 60 km do Distrito Federal.

No planalto central do país, novos produtores apostam em transformar a região do Cerrado em um novo polo vinícola, apoiados por uma técnica de produção desenvolvida nos anos 2000 por pesquisadores brasileiros.

Há uma janela para o cultivo de uvas finas destinadas ao vinho no centro-oeste do Brasil, coração do agronegócio com predominância de áreas de produção de soja, milho e pecuária de corte, avalia Barcelo.

Este enólogo de cabelos grisalhos encontrou condições “excepcionais” que todo produtor vitivinícola sonha: um terreno em altitude, clima seco e uma diferença de até 15 graus entre a temperatura de dia e de noite no inverno, o período de maturação da fruta.

“Esta vitivinicultura é diferente ao que se vê no [resto do] mundo”, explica à AFP, destacando o “frescor” e a complexidade do aroma dos vinhos do planalto central, de costas para uma fileira de parreiras de Syrah.

Sonho realizado
A produção de uvas no Distrito Federal é recente, com uma dezena de produtores dedicados à atividade nos últimos anos, segundo a Emater, empresa regional de extensão rural.

Eles aplicam uma técnica chamada “poda invertida ou poda dupla”, que permite colher as uvas no inverno e não no verão, quando as chuvas fortes ameaçariam a colheita.

Em 2018, o DF tinha 45 hectares destinados ao cultivo de vinho, uma área que saltou para 88 ha no ano passado.

Ronaldo Triacca, produtor da região, realizou um desejo antigo há seis anos.

“Tinha um sonho de elaborar um vinho, mas ates de conhecer a poda invertida, minha expectativa era elaborar um vinho de mesa. Depois de conhecer essa tecnologia, vimos que era possível produzir vinhos de qualidade”, explica este homem de fala pausada.

Em uma propriedade onde já produzia soja e milho, ele também passou a cultivar uvas Syrah, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, distribuídas em seis hectares.

Hoje, vende 15.000 garrafas por ano. E, juntamente com outros produtores da região, tornou-se sócio da Vinícola Brasília, uma produção colaborativa, que chega a 150.000 garrafas por ano.
Uma de suas variedades favoritas é a Syrah, a que “mais se adaptou” à poda dupla e produz vinhos que “remetem muito aos da França”, enquanto segura um cacho de uvas de cor escura.

Por enquanto, a maior parte destes vinhos é consumida nas propriedades e em lojas especializadas e restaurantes de Brasília.

Competir com os melhores
“Fiquei surpreso com a qualidade, o aroma. Não tinha ideia do que estavam produzindo aqui”, diz à AFP Luciano Weber, de 45 anos, morador de Brasília que participou de uma degustação na Villa Triacca.

A “poda dupla” consiste em cortar a planta duas vezes, uma no inverno e outra no verão, para que a fruta fique pronta para a colheita entre julho e agosto.

A técnica também inclui o uso de um hormônio não convencional, que regula o crescimento e mantém a planta adormecida.

Produtores como Triacca garantem que este fito-regulador sintético “não deixa nenhum resíduo” no produto final, mas seu uso tem provocado desconfiança nos especialistas.

“Eu não conheço os efeitos desse hormônio nessa cultura. Nunca vi um estudo” a respeito, afirma Suzana Barelli, jornalista especializada do jornal Estado de S. Paulo, embora admita que estes vinhos alcançaram “muita qualidade”.

“O pessoal acha que se não for chileno, argentino, português, francês, não é um vinho bom”, diz Felipe Camargo, coordenador de fruticultura da Emater.

“A gente vai conseguir mudar essa ideia em pouco tempo”, aposta.

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