Tradicional vinícola Real Companhia Velha cria rótulos com castas portuguesas ‘fora de série’

Por Léo Prado 13 Min Read

Sinônimo de tradição em vinhos do Porto, a Real Companhia Velha resgatou uvas portuguesas quase extintas no projeto Séries, que busca inovar com vinhos da região do Douro. A linha foi apresentada no Rio por Pedro Silva Reis, de 31 anos, que herdou o nome do pai e a paixão por vinhos. Formado em gestão de empresas na Inglaterra, ele conclui em breve a especialização em enologia. Atualmente, trabalha como enólogo assistente de Jorge Moreira.

— Em 2017, decidi trilhar um caminho novo. Ficar um pouco mais na produção, na sala de provas. Fui para a Espanha e fiz um estágio de vindima no Dominio de Pingus, em Ribera del Duero, um produtor espanhol muito famoso. A ideia aqui foi dar uma volta não só na minha vida e focar no que gosto, que é a produção de vinho, mas também na produção de lotes, estilos, feitios e acima de tudo encontrar o que chamamos a melhor expressão possível das vinhas que nós temos.

Pedro conta que recebeu carta branca do pai para apresentar inovações:

— Tenho a sorte e o privilégio de poder dar, com a minha família e a nova geração, que inclui meu irmão e primos, uma nova direção, mas acima tudo, com muito respeito pela tradição e pela história da Real Companhia Velha. Nós não acreditamos em mudanças bruscas, acreditamos em resiliência e adaptação. Acreditamos que, sendo uma empresa familiar, e tenho a sorte de ter um pai muito flexível, compreensivo, e com uma mente aberta. Ele nos permite inovar, apresentar ideias, mas tudo tem que ter fundamento.

Ele ressalta que a família tem uma grande ligação com a região do Douro, a vinha e tudo o que se faz em volta da vinha.

— Nos últimos 30 anos, a Real Companhia Velha investiu muito na vinha. É uma viticultura rigorosa e muito aprimorada. Isso nos permite fazer um trabalho muito focado, que é um vinho de terroir, um vinho de parcela. No fundo, o mundo procura cada vez mais vinhos com origem e temos isso muito bem involucrado na nossa cultura.

O enólogo afirma ainda que, por outro lado, a marca tem a flexibilidade para descobrir perfis mais exóticos de vinhos, que com o trabalho de recuperação de castas autóctones:

— Queremos divulgar o projeto Séries como ideologia e como conceito. É uma linha experimental, que não tem consistência obrigatória nem necessariamente repetição de vinhos. Ela reflete o trabalho de recuperação de castas autóctones, que estavam praticamente em extinção. Nos anos 1970, no Douro, houve um foco muito grande da parte dos produtores em sete ou oito castas de uva tinta; e três ou quatro de uva branca. Muito no âmbito da produção do vinho do Porto. Mas nós não acreditamos que o Douro viva só destas castas.

Pedro explica que, em 2001, teve início o trabalho para encontrar nas parcelas de vinhas mais velhas plantas individuais de castas que muita gente não conhecia.

— Estas castas autóctones mostravam resiliência, adaptação e acima de tudo gostavam das condições austeras do Douro. Através de uma abordagem 100% visual, porque no fundo não havia um outro produtor a fazer este trabalho de recuperação que tinham parcelas individuais destas castas raras, nós acabamos por fazer um trabalho de recuperação e plantávamos no mínimo um hectare de cada para podermos ter matéria prima para vinificar.

Já são 29 castas raras recuperadas e que estão em produção. Como exemplos, o Samarrinho, o Donzelinho Branco, o Rufete, o Cornifesto, a Tinta da Barca.

— No projeto Séries, o objetivo é engarrafar o varietal. Mas o nosso grande propósito nesse trabalho é descobrir um lado do castas interessantes que possam ser componentes muito boas para os nossos blends clássicos, mas que também nos permitam trabalhar com mais eficiência nos tempos futuros, ou seja, a adaptação às alterações climáticas. Castas mais resistentes ao calor e à seca, de ciclos mais longos, com maturação mais tardia. Por outro lado, perfis exóticos e interessantes.

Em visita ao Rio, Pedro apresentou o Séries Samarrinho 2018, feito com uma uva que havia caído no esquecimento:

— Esse vinho é um exemplar exótico. Quando começamos com ele, em 2013, me perguntavam se era branco ou tinto. Ninguém conhecia, só havia referência em livros. Essa uva caiu no esquecimento pelo seu baixo rendimento e incapacidade de maturação. Mas vemos uma planta robusta, com vigor, sempre com bagos pequenos. Ela sobrevive em uma zona quente e com pouca água. Nem sempre produz, não dá garantia —descreve.

— Ele lembra o Riesling pelo lado glicérico e resinoso. É um vinho tenso, uma casta única. Gostamos da leveza e da pureza dela.

Outro rótulo da linha é o Séries Cornifesto, também à venda no Brasil. Os vinhos são importados pela Barrinhas, que recebe uma alocação anual da linha Séries. O preço de cada um é R$ 419:

— Vem para o Brasil o que está disponível, nem sempre são vinhos com as mesmas castas. Há as mais consistentes, outras não, em que só fizemos dois engarrafamentos nos últimos 10 anos. Só engarrafamos quando a qualidade é muito boa.

Pedro Siqueira também destacou os rótulos da linha premium Carvalhas, elaborados com vinhas centenárias. O Carvalhas Vinhas Velhas Tinto 2017 recebeu 95 pontos Wine Spectator e sai a R$899.

— O meu desafio é transmitir o que nós valorizamos e que é nosso há mais de um século, que é um vinho muito original, que representa vinhas centenárias e sobretudo representa a nossa filosofia frente à produção de vinhos do Douro, que é o Carvalhas, nosso vinho tinto que é nosso topo de gama. No Carvalhas, buscamos repetir o que nossos antepassados faziam, mas agora em uma viticultura ligeiramente mais moderna. Na Real Companhia Velha, somos proprietários de cinco quintas, que totalizam 555 hectares de vinha. Temos a obrigação de respeitar o terroir.

Pedro revela que está por trás de um vinho lançado este ano em Portugal, o Dandy de Cidrô, ainda sem data prevista para chegar ao Brasil.

— É um vinho leve, com pouco álcool para a região, na casa dos 11%. Com perfil agradável e sedutor. Isso foi aceito pelo meu pai, como um vinho disruptivo, com relação às gamas clássicas, como a Porca de Murça e a Evel. Ele foi criado porque hoje no fundo acredito vivamente que um produtor de sucesso é o que consegue vender e o que gosta. Além disso, acreditamos vivamente que o mundo está a girar e a direcionar para vinhos mais leves, menos alcoólicos e com facilidade de consumo para o dia a dia. Não digo isso num plano geral de qualidade máxima, mas num plano de consumo diário. Vejo isso no mercado de exportação e no nacional.

O Dandy Branco é produzido com Samarrinho, Viosinho e Verdelho.

— No tinto, estamos a trabalhar a Tinta Alvariz, a Tinta Francisca e o Viosinho também, uma uva branca. Um pouco de branco no estilo palhete. O branco traz o sexy. Temos tido um bom mercado em Portugal, na Bélgica e um pouco em França. Vamos lançar no Brasil no futuro.

Preocupação com seca e verões muito quentes em Portugal

Pedro revelou a preocupação com as mudanças climáticas, com secas e verões escaldantes na região do Douro:

— Acreditamos que a questão da água é um Norte importantíssimo. Cada vez temos menos água disponível em solo. Cada vez há a tendência de ver menos precipitação e verões mais quentes. São dias mais quentes durante mais tempo. Preocupamo-nos muito com a sobrevivência de plantas autóctones, não só da vinha. Plantas autóctones que vivem na mata e que já em 2022 mostraram pouca resistência a um verão excessivamente quente, com mais de 20 dias com temperaturas acima de 40 na zona do Cima Corgo. O que nos deixa bastante preocupados. Água é vida.

Ele detalha que também fica mais complicado fazer a colheita manual com o intenso calor:

— Nós nos preocupamos com o bem-esta das pessoas. Oitenta por cento da colheita é manual por causa da geografia. Isso nos faz pensar que cada vez será mais importante o trabalho mecanizado. Existe falta de mão de obra, mas a que há trabalha em condições extremas, como em 2022, que foi um ano difícil. O que nos salvou foi uma ligeira chuva à beira da vindima. Ano passado, a precipitação foi menos metade da média para a região. Para 2023, já houve bastante chuva, o que nos ajuda a sobreviver aos meses mais quentes.

Além da busca por castas resistentes, o enólogo explica que a vinícola está promovendo o enrelvamento espontâneo nos vinhedos:

— É o crescimento de vegetação entre as linhas de videiras. Isso não só permite maior preservação do solo face à erosão, mas oferece mais canais para infiltração da água no solo. Depois que cortamos essa erva, nós a deixamos secar em cima do solo para criar uma capa protetora e haver menos evaporação da água pelo calor. Fazemos sempre na primavera para o verão.

Com relação à tradição da marca, Pedro avalia que os vinhos do Porto vão coexistir ao lado dos rótulos do Douro:

— O vinho do Porto conseguiu sobreviver durante 267 anos no mundo com crescimento constante. E acima de tudo conseguiu preservar um estilo com consistência. Ao contrário de outras regiões de vinho fortificado, que se foram abaixo, o vinho do Porto conseguiu se manter com a mesma área de vinha e os mesmos números de produção e de venda.

Ele explica que o vinho do Porto não cresce nas categorias de entrada de gama, as comerciais.

— Está estagnado. Mas cresce nas categorias especiais. Estamos a ver uma premiumização do vinho do Porto em mercados como Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Bélgica. No Brasil, o ele tem uma tradição muito antiga, mas ainda não ocorreu essa premiumização, mas está no bom caminho.

Com relação aos do Douro, Pedro revela que o Brasil é um mercado muito importante, em que o consumidor reconhece a qualidade e tem uma ligação cultural muito forte:

— E existe acima de tudo uma tendência muito maior, especialmente em certos estados do Brasil, principalmente o Rio de Janeiro, para o consumo do vinho português. Podemos dizer que São Paulo não tem essa preferência tão nítida, mas o Rio sim. Vejo de fato um crescimento e um maior desenvolvimento da cultura de consumo de vinho. Mas o Brasil ainda está muito aquém do consumo de vinho que tem potencial.

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