Messala: a história de um vinho brotado da guerra

Por Léo Prado 9 Min Read

O destino traça seus caminhos, e os homens definem seus destinos. Uma certa curiosidade, talvez traçada pelo destino, levou um jovem marceneiro português, chamado Mario Gonçalves, a perguntar a um homem, com trajes militares bastante atraentes, em uma missa, por que ele estava vestido daquela forma. “Eu sou paraquedista. Salto de aviões”, o homem respondeu. Mario não teve dúvidas: pouco tempo depois saiu em busca de uma junta militar para se inscrever. Queria ser paraquedista. Fez a inscrição e não mais cuidou do assunto.

Havia, no entanto, um problema: Portugal estava, na década de 1960, em guerra com suas ex-colônias africanas. Antes de se inscrever na junta, o marceneiro não podia ser convocado para a batalha por ser uma espécie de arrimo de família. A partir do momento de sua inscrição, ele se tornou um voluntário, mesmo involuntariamente. Resultado: num certo dia, policiais foram buscá-lo em casa para levá-lo à guerra. Sua vida mudou radicalmente. E os caminhos por ele trilhados iriam desembocar em um belo vinho…

Aos 18 anos, Mario enfrentava duas batalhas: a da guerra e a da necessidade de levantar algum dinheiro para ajudar a família. Sobreviveu a uma, aprendeu com a outra. Após cinco anos no front, se deparando com os horrores presentes quando a paz se ausenta, chegou o momento de voltar para casa. Ele se recusou. Não queria mais ser marceneiro. Assumiu de vez a gerência de um bar de oficiais no destacamento militar. O local virou uma referência para os clientes e chamou a atenção de vendedores de produtos, inclusive de um comerciante de bebidas. Mario começou a vender vinhos em seu bar e em outras bases militares. Ficou nessa atividade por mais quatro anos, até surgir a oportunidade de voltar a trabalhar na cidade do Porto. Sua criatividade na apresentação e na elaboração de produtos, como um molho de pimenta, o fizeram prosperar nos tempos seguintes, graças a muito trabalho e o apoio da família. Mesmo por caminhos tortos, a guerra acabou lhe abrindo oportunidades. E elas foram bem aproveitadas.

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A paixão de um garoto por vinhos
Havia por lá os terrenos de um integrante da família. Produzia-se batata, cebola e… vinho. Mas como era e é comum, a bebida servia apenas para o consumo da família e dos funcionários. No entanto, já chamava a atenção de Messala Gonçalves, um dos quatro filhos de Mario. O garoto, aos 12 ou 13 anos, levava jeito para a produção. Seu pai sabia disso. E determinava a todos: “Deixem o ‘puto’ trabalhar!” E o ‘puto’ trabalhou. Muito. Acertou, errou. Além dos tintos, descobriu técnicas para fazer brancos, espumantes, rosés. E aprimorou seus conhecimentos em terras adquiridas na região de Monção e Melgaço. Messala tornou-se um enólogo na prática, no dia a dia. E convenceu a família a investir no ramo, principalmente pela facilidade de distribuir a produção.

Mario decidiu dar ao vinho o mesmo nome do filho. Tornou-se um rótulo incomum, afinal, Messala Severus é o vilão na história de Ben Hur. Ou melhor, vilão para quem tem uma visão tradicional sobre a obra. Para o ex-marceneiro e ex-combatente, Messala é o verdadeiro herói, daí sua escolha. Aliás, Mario tentou batizar outro de seus filhos como Mao Tsé-Tung. O bom senso imperou e isso não aconteceu.

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De vinho verde a vinho do Porto
Messala acertou na produção do vinho verde, feito com a casta Alvarinho. Já na sua segunda safra, há mais ou menos 18 anos, o vinho ganhou o prêmio de melhor Alvarinho de Portugal. Desde então, coleciona títulos, medalhas, prêmios. Ao longo dos anos, a produção se expandiu para mais três regiões vinícolas de Portugal: além de Monção e Melgaço, os vinhos saem das videiras plantadas no Alentejo, no Douro e no Dão. A linha da Grande Porto, nome da empresa hoje conduzida por Messala com apoio da família, notadamente do irmão mais velho, é muito variada e dividida em quatro grandes grupos, o Desfiado, formado pelos vinhos de Monção e Melgaço; o Encostas de Lá, do Douro; Montes de Lá, do Alentejo; e o Serras de Lá, do Dão. A empresa também tem uma atividade em Lisboa, com um rótulo de grande sucesso no Brasil, o Pode Ser.

Do vinho verde, premiado desde quando nasceu, Messala evoluiu para os mais variados tipos de rótulos, de brancos a vinhos fortificados, passando por tintos, rosés e espumantes, das mais diversas faixas de preço. Há vinhos feitos da forma mais tradicional possível, mas há também criações incomuns, como um vinho verde licoroso e um tinto com 17 graus de volume alcoólico, o Montes de Lá 17. “São dessas maluquices que faço”, comenta Messala. Quando perguntado sobre o número de rótulos hoje colocados no mercado pela Grande Porto, ele responde: “Cerca de 30”. O número causa espanto. E ele completa: “São muitos e muitos anos de trabalho”. De trabalho e de um caminho traçado em meio a equívocos, guerra, erros e muitos acertos de quem decidiu fazer seu próprio destino. E conseguiu.

MESSALA ALVARINHO MONÇÃO E MELGAÇO – Vinho produzido apenas com a casta Alvarinho, a mais típica das uvas da região demarcada dos Vinhos Verdes. Um colecionador de prêmios, como é relatado pelo seu autor, Messala Gonçalves. Hoje, a produção está a cargo do enólogo João Garrido. Após a colheita, feita manualmente, a fermentação ocorre em cubas de inox a temperatura controlada. Aí, estagia durante 3 meses,prolongando-se o estágio por mais 3 meses em garrafa.
Quanto? Entre R$ 135 e R$ 190

MONTES DE LÁ 17 – Vinho produzido no Alentejo apenas em anos de safras excepcionais. Ganhou esse nome por dois motivos: o primeiro vinho produzido atingiu 17º no volume alcoólico e foi lançado no 17º aniversário de Mário André Gonçalves, o primeiro membro da terceiro geração da família. É feito com uma mescla muito incomum, de Alicante Bouschet, Syrah e Cabernet Sauvignon. Os 17º de álcool da primeira safra foram acidentais. Hoje, são intencionais. O enólogo David Patrício coloca o mosto por 12 dias em balseiro de carvalho francês à 24º. Depois, o vinho estagia em barricas de carvalho francês por 16 meses. O amadurecimento é concluído em mais um ano de garrafa. Desnecessário falar de sua potência e estrutura…
Quanto? Entre R$ 368 e R$ 600

PODE SER TINTO – Pode Ser é uma linha de vinhos bem mais acessíveis da Grande Porto. Trata-se de uma mescla de Touriga Nacional, Syrah e Alicante Bouschet, colhidas em Alenquer, uma sub-região de Lisboa. É vinificado em cubas de inox, não passando por madeira. Um vinho de grande sucesso no Brasil, atualmente, por conta de seu preço e pelo fato de ser “fácil de beber”, como dizem muitos portugueses. Atinge os objetivos de seu enólogo, Nuno Inácio. É ele quem também produz o vinho branco de mesmo rótulo, feito com as castas Arinto e Fernão Pires. Uma pequena amostra das razões do crescimento das vendas dos vinhos portugueses no Brasil, por juntar boa qualidade com preço bastante razoável.
Quanto? A partir de R$ 40.

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