Usadas desde o Império Romano, barricas deixam vinhos de qualidade ainda melhores

Por Léo Prado 4 Min Read

Até o ano 200 d.C. o vinho era armazenado e transportado em ânforas, hábito que os romanos adquiriram dos gregos. No fim do Império Romano os celtas, que vendiam e forneciam vinho para aquele império, para facilitar o transporte e utilizar a fartura de madeiras que tinham, criaram o barril, que muito pouco evoluiu de lá para cá. Como as viagens eram longas, percebeu-se que o vinho “arredondava” nos barris, tornando-se mais palatável. Com o passar do tempo, refiro-me há séculos, os vinhateiros passaram a adotar a barrica com o fim de tratar a forma rústica do vinho. Os franceses, seguidos pelos espanhóis, se tornaram mestres na arte de bem barricar o vinho. Hoje em dia, a razão para a utilização de barricas são os benefícios que esta prática traz à bebida.

A porosidade da madeira permite uma micro-oxigenação ao vinho ali guardado e, lentamente, amacia os taninos, tornando-o mais “redondo”, menos agressivo. Também auxilia na estabilização da cor — em especial dos tintos — permitindo que os taninos e os antocianos, que são pigmentos encontrados na seiva das uvas, que interfere na cor do vinho e ao qual se atribui poderoso poder antioxidante, interajam por um processo chamado de ligação oxidativa, tornando a cor mais estável e durável. Esta ligação oxidativa, que acontece nas barricas, também propicia o surgimento de novos aromas e sabores, permitindo uma troca de características oriundas da madeira que são transferidas ao vinho. Dependendo da quantidade de vezes que o recipiente foi usado e o tempo que o vinho passou ali dentro, pode apresentar mais ou menos destas características. Resumindo, o estágio do vinho na barrica serve para domá-lo e torná-lo melhor, mais rico.

Contudo, não é qualquer vinho que tem condições de passar por madeira. O vinho precisa ser de qualidade para que a barrica o deixe melhor. Historicamente, os produtores de Bordeaux, da Bougogne e do Piemonte, ao meu ver, são os que melhores manejam as barricas, usando-as em tamanhos e origens diferentes, de forma a propiciar cores, aromas e sabores que pretendem imprimir nos seus vinhos. Do Novo Mundo, sem sombra de dúvida, são os californianos que melhor aprenderam esta técnica de “bem barricar” o vinho. Exagero de tempo e qualidade das barricas, levam a obter vinhos onde a fruta fica com gosto e aroma mais “compotados”, onde a extração das características naturais do vinho dá lugar ao excesso de madeira (percebam a baunilha nos vinhos onde se usa barricas novas e por muito tempo) e a chance do vinhateiro produzir um vinho enjoativo é muito grande. Quando dizemos que um vinho é pesado (como boa parte dos chilenos ou do sul da Itália), com certeza estaremos diante de vinhos muito barricados e muito alcoólicos (mais de 13% de álcool por volume). Mas, como vinho é gosto, reitero que o melhor vinho é aquele que você gosta. Salut!

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