Brasil registra maior crescimento de consumo de vinho do mundo em 2025 e projeta R$ 22 bilhões em 2026

Por Diego Rodríguez Velázquez 7 Min de leitura

Enquanto o mercado global recuou ao menor patamar desde 1957, os brasileiros provaram que bebem cada vez mais e, principalmente, melhor

O Brasil surpreendeu o mercado vitivinícola internacional em 2025. Enquanto o consumo global de vinhos caiu 2,7% e atingiu o nível mais baixo desde 1957, segundo relatório da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o país registrou alta de 41,9%, a maior expansão proporcional entre todos os mercados analisados pela entidade. O volume estimado chegou a 4,4 milhões de hectolitros consumidos, o maior já registrado na história do país, ficando 19,9% acima da média dos últimos cinco anos.

Esses números chegam em um momento em que o setor projeta faturamento superior a R$ 22 bilhões no mercado nacional em 2026, com base em estimativas do próprio segmento divulgadas pelo Poder360. Apenas no primeiro trimestre de 2025, o mercado movimentou R$ 3,9 bilhões, com mais de 110 milhões de garrafas comercializadas. O crescimento acumulado na última década ultrapassa 30%, segundo a própria OIV, consolidando o Brasil como um dos poucos mercados em expansão no cenário vitivinícola mundial.

A pergunta que muita gente faz diante desses números é simples: o que explica esse crescimento tão expressivo justamente quando o restante do mundo bebe menos?

Por que o brasileiro está consumindo mais vinho

A resposta mais honesta passa por uma mudança de comportamento que vem se consolidando há alguns anos. O vinho deixou de ser uma bebida reservada a ocasiões formais ou a quem já tinha familiaridade com o tema. Dados da consultoria Ideal BI, especializada em inteligência de mercado para bebidas, mostram que o segmento de alto valor agregado, categorias Premium e Superpremium, encerrou 2025 com uma fatia de 30% do faturamento anual de vinhos finos no país. O consumidor brasileiro passou a buscar menos quantidade e mais qualidade por garrafa.

Os vinhos brancos lideram essa transformação. De acordo com a mesma Ideal BI, os brancos atingiram 21% de participação no mercado nacional em 2026, e quando somados aos rosés, essa fatia sobe para 27% das escolhas dos consumidores brasileiros. Entre o primeiro trimestre de 2025 e o último de 2024, as vendas de brancos cresceram 28%. Isso reflete uma mudança de paladar que os especialistas do setor relacionam ao clima do país e a um estilo de vida mais descontraído, onde o vinho passa a acompanhar desde um almoço de domingo até uma sexta à tarde.

Outro fator relevante é o acesso à informação. Eventos como a Pró-Vinho, que lançou a terceira fase da campanha nacional “A Vida É Melhor Com Vinho” com mais de 60 influenciadores e formadores de opinião das áreas de gastronomia e lifestyle, ajudam a desmistificar o consumo e aproximar novos públicos do universo enológico. A digitalização do varejo, que já representa cerca de 20% das vendas do setor segundo estimativas da Wine South America, também contribui para ampliar o alcance dos rótulos.

O que os dados revelam sobre o perfil do consumidor

O comportamento do comprador de vinho no Brasil passou por uma reconfiguração. Se antes o foco estava no preço e no volume, hoje fatores como terroir, história do produtor e método de produção entram na equação. Diego Peres Ávila, da Bodegas Grupo Wine, resumiu bem essa mudança ao afirmar que “o consumidor se preocupa com as práticas socioambientais, a história do produtor e a autenticidade do vinho”, conforme publicado pela Gazeta da Semana.

Essa busca por experiências mais completas também explica o crescimento do enoturismo. A plataforma Wine Locals registrou aumento de 57,8% no número de experiências comercializadas no Rio Grande do Sul em 2025 em comparação ao ano anterior, segundo dados publicados pelo portal Mercado e Eventos. Vinícolas da Serra Gaúcha passaram a oferecer desde piqueniques nos vinhedos até jantar com a família produtora, respondendo à demanda de quem quer entender o produto além da garrafa.

No plano internacional, as exportações de vinhos brasileiros também avançam. O Brasil confirmou participação na Wine Paris 2026, representado por oito vinícolas, entre elas Aurora, Casa Valduga, Miolo e Salton, por meio do projeto setorial Wines of Brazil, mantido pelo Consevitis-RS em parceria com a ApexBrasil. A presença do rótulo Grama 2024, da Casa Tés, entre os 115 vinhos selecionados na respeitada lista World’s Best Sommeliers’ Selection 2026, com avaliadores de 17 países, reforça que a produção nacional começa a ganhar reconhecimento internacional de forma consistente.

O que esperar para os próximos meses

Com o mercado em maturação, as próximas tendências apontam para uma combinação de diversidade e qualidade. Regiões antes pouco conhecidas, como a Serra da Mantiqueira e os campos de altitude de Santa Catarina, ganham espaço ao lado da tradicional Serra Gaúcha, e uvas como Marselan e Teroldego começam a aparecer em rótulos que chamam atenção pela originalidade.

A Pró-Vinho retoma em julho de 2026 a campanha “A Vida É Melhor Com Vinho” em sua terceira edição, com foco não apenas em comunicação, mas também em capacitação profissional do trade, por meio de parcerias com iFood, ABRAS e sommeliers especializados. Para o varejo, essa iniciativa representa uma oportunidade concreta de qualificar o atendimento e elevar o ticket médio.

Para quem consome ou quer começar a consumir vinho, o contexto é animador. A oferta de rótulos nacionais de qualidade cresceu, os preços de entrada ao universo premium ficaram mais acessíveis, e a variedade de estilos, dos espumantes clássicos da Serra Gaúcha aos brancos frescos da Mantiqueira, permite que cada pessoa encontre um vinho à sua medida. O Brasil talvez nunca tenha sido um lugar tão bom para descobrir e explorar o vinho como agora.

Fontes:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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