Vendas de passeios em vinícolas cresceram 57,8% em 2025, com turistas de fora do Rio Grande do Sul respondendo por quase 80% da demanda.
O enoturismo na Serra Gaúcha voltou a bater recorde. Levantamento da plataforma Wine Locals mostra que o número de experiências vendidas em vinícolas da região cresceu 57,8% em 2025 na comparação com o ano anterior, movimentando mais de 71 mil experiências e um tíquete médio de R$ 510. Os números intrigam quem observa o setor de turismo: como a região conseguiu não apenas se recuperar dos impactos das enchentes de 2024, mas também superar patamares anteriores de visitação? A resposta está na combinação entre a volta do turista de maior poder aquisitivo, o investimento das vinícolas em experiências mais completas e a força da vindima como atrativo turístico e cultural.
A recuperação da Serra Gaúcha após as enchentes
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 afetaram diretamente a mobilidade e a operação de vinícolas na Serra Gaúcha, reduzindo o fluxo turístico na região naquele ano. A retomada, no entanto, veio de forma consistente em 2025. Segundo o CEO da Wine Locals, Diego Fabris, o segundo trimestre do ano apresentou avanço de 126,9% na comparação com o mesmo período anterior, evidenciando uma recuperação não apenas em volume, mas também em qualidade: o tíquete médio das experiências chegou a R$ 510, alta de 6%, sinal de que o visitante está disposto a pagar mais por produtos premium e atividades mais elaboradas.
A composição do público também mudou. São Paulo respondeu por 31,6% da demanda em 2025, seguido por Minas Gerais, com 12,4%, e Rio de Janeiro, com 7,9%. No total, 79% dos compradores de experiências vieram de fora do Rio Grande do Sul, o que consolida a Serra Gaúcha como destino de alcance nacional, e não apenas regional. A taxa de recorrência de 22,5% reforça esse cenário, mostrando que boa parte dos visitantes já não está na região pela primeira vez, o que reduz o custo de atração de novos turistas e fortalece a fidelização ao destino.
A vindima como motor do turismo na região
Entre janeiro e março, a colheita da uva, conhecida como vindima, transforma o calendário turístico da Serra Gaúcha. A tradição, herdada dos imigrantes italianos que colonizaram a região, movimenta a economia local e atrai visitantes interessados em atividades como colheita manual, pisa da uva e degustações harmonizadas com programações gastronômicas e culturais. Municípios como Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Garibaldi e Gramado organizam programações específicas para o período, que já se tornou um dos principais ativos de marketing territorial do Rio Grande do Sul.
As perspectivas para a safra de 2026 reforçam o otimismo do setor. Na Cooperativa Vinícola Aurora, a projeção é de 85 milhões de quilos de uva, alta de 18,7% em relação ao ano anterior, com expansão de áreas destinadas à produção de espumantes, segmento em franca ascensão no mercado nacional. No Vale dos Vinhedos, que reúne 31 vinícolas, 12 hospedagens e 19 restaurantes em uma área de 82 quilômetros quadrados, a Associação dos Produtores de Vinhos Finos (Aprovale) estima que cerca de 450 mil turistas visitem a região anualmente, número que evidencia a maturidade do destino e a diversidade de atrativos disponíveis para diferentes perfis de visitante.
Um turismo cada vez mais voltado à experiência completa
O perfil do visitante da Serra Gaúcha também mudou nos últimos anos. Segundo produtores da região, boa parte dos turistas hoje busca a experiência completa, e não apenas a degustação técnica de vinhos. Casais procuram roteiros românticos, famílias buscam vivências culturais e gastronômicas, e muitos visitantes simplesmente querem conhecer o clima típico da Serra em meio aos vinhedos e às tradições italianas locais. Esse movimento ajudou a popularizar o enoturismo entre públicos que antes não tinham conhecimento técnico sobre vinho como pré-requisito para o passeio.
Vinícolas menores também sentem o impacto direto dessa transformação. Na Don Laurindo, por exemplo, o enoturismo já responde por até 30% do faturamento, patamar bem acima da média de 10% observada em outras regiões produtoras do país. Parte desse resultado vem do investimento em qualificação para atender turistas estrangeiros, com guias preparados para receber visitantes da França, dos Estados Unidos e do Chile. O movimento mostra que o enoturismo gaúcho não cresce apenas em volume, mas também em sofisticação, ampliando sua capacidade de competir com destinos vinícolas internacionais consolidados.
Os números de 2025 e as projeções para a safra de 2026 indicam que a Serra Gaúcha consolidou sua recuperação e ampliou seu papel como principal polo de enoturismo do Brasil. Mais do que a venda de vinho, a região vende hoje uma experiência completa, que combina paisagem, gastronomia, cultura e tradição imigrante em um único roteiro. Para o setor, o desafio agora é sustentar esse crescimento, ampliando a infraestrutura de hospedagem e qualificação profissional, de modo a garantir que o destino continue atraindo visitantes de diferentes regiões do país e do exterior nos próximos anos.
Fontes: Jornal do Comércio, Jornal da Capital, Agência MG, uvibra.com.br


