Dados da OIV mostram alta de 30% na última década no país, mesmo com o menor consumo mundial da bebida desde 1961.
Enquanto o consumo mundial de vinho enfrenta o menor volume registrado desde 1961, o Brasil caminha na direção oposta. O país acumulou um crescimento de aproximadamente 30% no consumo da bebida na última década, e a expectativa para 2026 é que o setor movimente mais de R$ 22 bilhões. Os números, levantados pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) e pela consultoria Ideal, geram uma dúvida natural em quem acompanha o mercado de bebidas: por que o brasileiro está bebendo mais vinho justamente no momento em que o consumo global recua? A resposta combina mudança de comportamento, novos hábitos de consumo em ocasiões informais e o amadurecimento da produção nacional. Entender esse movimento ajuda a explicar não apenas os números do setor, mas também o papel que o vinho passou a ocupar no dia a dia de milhões de brasileiros.
Por que o brasileiro está bebendo mais vinho
Segundo a OIV, o consumo brasileiro de vinho teve alta de 11,6% entre 2022 e 2023, o segundo maior aumento do mundo, atrás apenas da Romênia, que registrou 20% no período. No primeiro trimestre de 2025, o país movimentou R$ 3,9 bilhões só com a venda de vinhos, com mais de 110 milhões de garrafas comercializadas. Esses números chamam atenção justamente por contrastarem com o cenário internacional, marcado por retração histórica no consumo da bebida. Enquanto grandes mercados tradicionais reduzem o volume consumido, o Brasil consolida uma trajetória de expansão que já dura dez anos, sustentada tanto pelo crescimento da produção interna quanto pela chegada de rótulos importados a preços mais acessíveis.
Para o especialista em vinhos Diego Bertolini, a explicação está diretamente ligada à forma como o brasileiro passou a enxergar a bebida. Nos últimos anos, o consumidor deixou de associar o vinho apenas a jantares formais ou datas comemorativas e passou a incluí-lo em momentos informais, como encontros com amigos ou refeições do dia a dia. Essa mudança de percepção, somada à ampliação da oferta de rótulos nacionais de boa relação custo benefício, ajudou a impulsionar tanto as vendas quanto a produção local. O resultado é um mercado mais aquecido e menos dependente de ocasiões especiais para justificar a compra de uma garrafa.
A ascensão do vinho branco e das borbulhas
Um dos sinais mais claros dessa transformação está na preferência crescente por vinhos brancos. Levantamento da consultoria Ideal, especializada em inteligência de mercado para o setor de bebidas, mostra alta de 28% nas vendas de vinho branco na comparação entre o primeiro trimestre de 2025 e o último trimestre de 2024. O movimento reflete a busca do consumidor por opções mais leves e frescas, características que combinam com o clima predominantemente quente do país e com o uso da bebida em momentos casuais, longe do estereótipo de que vinho é sempre tinto e reservado para ocasiões solenes.
Esse novo perfil de consumo também impulsiona o crescimento de eventos ligados à cultura do vinho pelo país. Em Curitiba, por exemplo, o CWB Wine Festival chega à segunda edição em 2026, reunindo apreciadores, produtores e marcas do setor em um formato de degustação livre. Segundo a sommelière e jornalista Elis Cabanilhas, embaixadora oficial do festival, o aumento das experiências enogastronômicas em diferentes regiões do país mostra que o interesse do público já não se limita ao consumo em casa: cresce também a procura por jantares harmonizados, degustações temáticas e roteiros que aproximam o consumidor da origem da bebida.
O que esperar do mercado em 2026
As projeções para 2026 reforçam a tendência de expansão. Além da expectativa de faturamento de R$ 22 bilhões, dados do Observatório Vitivinícola indicam que os parreirais ocuparam 27 mil hectares apenas no Sul do Brasil em 2025, com produção de 565 mil toneladas de uvas. O Rio Grande do Sul segue como o principal polo produtor do país, respondendo por cerca de 90% da produção nacional, um número que evidencia a concentração geográfica do setor e o peso da Serra Gaúcha na formação desses resultados.
Ainda assim, o espaço para crescimento segue amplo. Enquanto o consumo médio brasileiro gira em torno de 2,7 litros de vinho por pessoa ao ano, a Argentina, maior produtora vinícola da América Latina, registra consumo médio de 21,6 litros por habitante, segundo pesquisa da própria OIV. A diferença mostra que, mesmo com o crescimento recente, o brasileiro ainda está longe de se aproximar dos países mais tradicionais no consumo de vinho, o que sugere que o movimento observado nos últimos anos pode ser apenas o início de uma mudança mais duradoura de hábito.
Os números confirmam que o Brasil vive um momento particular no mercado de vinhos, na contramão de uma tendência mundial de queda. Mais do que um dado isolado, o crescimento reflete uma transformação cultural: o vinho deixou de ser exclusividade de ocasiões especiais e passou a fazer parte da rotina de um público cada vez mais amplo. Para o setor, isso significa oportunidade de expansão tanto na produção quanto no turismo ligado à bebida. Para o consumidor, representa acesso a rótulos nacionais de qualidade reconhecida internacionalmente, a preços competitivos, em um mercado que só tende a se profissionalizar nos próximos anos.
Fontes: Jornal do Comércio, Bem Paraná, uvibra.com.br, agenciabrasil.ebc.com.br


