Segundo o profissional da área de engenharia, Márcio André Savi, o ecodesign é a prática de projetar um produto pensando em todo o seu ciclo de vida, da matéria-prima até o descarte. Quando essa lógica entra no desenho desde o início, o produto nasce mais fácil de desmontar, separar e reaproveitar, o que muda diretamente a sua taxa de reciclagem no final de seu uso. Assim sendo, grande parte do desperdício de material reciclável não acontece na fábrica de reciclagem, mas muito antes, na etapa em que o produto foi concebido. Interessado em saber como? Acompanhe, a seguir.
Ecodesign: pensando no descarte desde o desenho do produto
Um produto tradicional costuma ser projetado para funcionar bem e custar pouco, sem considerar o que acontece quando ele deixa de servir. Márcio André Savi elucida que o ecodesign inverte essa ordem: o descarte entra como critério de projeto junto com custo, função e estética, desde a escolha do primeiro componente.
Essa mudança de ponto de partida altera decisões concretas, como o tipo de material usado, a forma de união entre peças e a quantidade de componentes diferentes em um mesmo objeto. Ou seja, quanto mais cedo essas variáveis entrarem na conversa, menor o custo de corrigi-las depois.
Como as escolhas de material afetam a reciclagem?
Materiais misturados são o maior obstáculo da reciclagem, conforme frisa Márcio André Savi. Um plástico revestido de metal, por exemplo, exige separação antes de qualquer reaproveitamento, e essa separação nem sempre é economicamente viável em escala industrial. Isso significa que um material tecnicamente reciclável pode acabar no aterro apenas por estar combinado de forma difícil de reverter.
Reduzir o número de materiais diferentes em um mesmo produto, ou ao menos torná-los facilmente separáveis, é uma das formas mais diretas de aumentar o valor de recuperação. Desse modo, simplificar a composição costuma valer mais para a reciclagem do que buscar um material considerado sustentável isoladamente.

Que decisões de projeto reduzem o descarte na prática?
Além do material em si, a forma como as peças se conectam determina se um produto pode ser desmontado sem destruí-lo. Uniões coladas ou soldadas, por exemplo, praticamente eliminam a chance de reaproveitamento de componentes internos. Tendo isso em vista, as seguintes decisões de projeto costumam reduzir esse tipo de perda:
- Uso de encaixes e parafusos no lugar de colas permanentes;
- Padronização de componentes entre diferentes modelos de uma mesma linha;
- Identificação clara do tipo de material em cada peça;
- Redução do número total de componentes distintos no produto.
Nenhuma dessas escolhas depende de tecnologia nova ou de custo elevado; trata-se principalmente de decisão de engenharia tomada na fase certa. O ganho aparece no fim da cadeia, quando o produto chega a um centro de triagem e pode ser processado sem etapas manuais adicionais.
O valor de recuperação do material como um critério de projeto
Nem todo material reciclável tem o mesmo valor depois de recuperado. Um metal separado com pureza alta pode ser vendido para reentrar diretamente na produção, enquanto um material contaminado por resíduos de outro componente perde valor comercial, mesmo sendo tecnicamente reciclável. Essa diferença muda o incentivo econômico por trás da reciclagem.
Fundado nisso, tratar o valor de recuperação como um critério de projeto, e não apenas como consequência do processo, é o que separa um produto pensado para o fim de sua vida de um produto apenas rotulado como sustentável, conforme ressalta Márcio André Savi, profissional da área de engenharia.
Projetar o fim de vida é parte do projeto do produto
Ecodesign não é uma etapa posterior ao desenvolvimento do produto; é parte da engenharia desde o primeiro esboço. As escolhas de material, montagem e identificação feitas no início determinam se aquele objeto terá uma segunda vida útil ou se vai encerrar sua trajetória como resíduo de baixo valor.
Dessa maneira, as empresas que tratam essas decisões como estratégicas, e não como obrigação regulatória, tendem a colher benefícios que vão além do meio ambiente, incluindo redução de custo com matéria-prima e maior previsibilidade na cadeia de suprimentos. Ou seja, quem projeta pensando no fim do ciclo tende a acertar mais decisões no começo dele.


