Na compreensão da psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, o medo do desconhecido pode pesar tanto quanto o medo do que já se vive. Em um relacionamento abusivo, o que é conhecido, mesmo quando machuca, tende a parecer mais previsível do que um futuro incerto, o que ajuda a entender por que sair costuma ser percebido como um risco maior do que ficar.
Reconhecer esse mecanismo, sem julgar quem permanece, é fundamental para acolher com respeito. Quando há informação, apoio e uma rede de acolhimento social por perto, o desconhecido deixa de ser uma ameaça isolada e passa a ser um caminho possível, dado no tempo e no ritmo de cada pessoa.
Por que o conhecido parece mais seguro que o novo?
A mente humana tende a preferir o que já conhece. Mesmo uma situação difícil oferece algo que o futuro não garante: a sensação de saber o que esperar. Em um relacionamento abusivo, a pessoa aprende a identificar os humores do parceiro, a antecipar reações e a criar estratégias para evitar conflitos.
Taiza Tosatt Eleoterio descreve que, diante da mudança, essa previsibilidade parece desaparecer. Sair significa entrar em um território sem mapa, no qual não se sabe como serão os dias, as decisões nem as pessoas ao redor. Nesse cenário, ficar passa a parecer mais seguro, ainda que traga sofrimento, porque o sofrimento já é conhecido.
O medo de perder a estrutura: moradia, dinheiro e rotina
O medo do desconhecido não é apenas emocional. Ele se apoia em preocupações concretas e legítimas: onde morar, como manter a casa, como pagar as contas, como cuidar dos filhos e como organizar o trabalho. Quando a vida prática está entrelaçada à relação, imaginar uma separação significa imaginar também uma reorganização completa da rotina.
Essas dúvidas não são sinais de fraqueza, e sim de responsabilidade com quem depende dela. Conhecer serviços de assistência social e outras formas de apoio ajuda a reduzir essa incerteza, porque transforma um futuro abstrato em passos que podem ser planejados com orientação.
O papel da dependência emocional na hesitação
A dependência emocional também pesa na hesitação. Ao longo do tempo, a pessoa pode passar a acreditar que não consegue se sustentar emocionalmente sozinha, que perdeu a capacidade de decidir ou que ninguém mais vai compreendê-la.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que a dependência emocional não surge de repente, mas é construída em um processo gradual, muitas vezes dentro do ciclo da violência, em que fases de tensão se alternam com momentos de afeto e promessas de mudança. Esses momentos mantêm viva a esperança, e a esperança, por sua vez, torna a saída ainda mais difícil. Entender essa dinâmica ajuda a olhar para a hesitação sem julgamento.
O que a psicanálise explica sobre o medo de recomeçar?
Para a psicanálise, o medo diante da mudança está ligado ao esforço da mente em proteger a pessoa do que pode ser doloroso. Mesmo quando a mudança traz alívio, ela também envolve perdas, como a rotina conhecida, os projetos compartilhados e a imagem que se tinha da própria vida. Por isso, é comum sentir tristeza e insegurança ao mesmo tempo em que se deseja sair.
Taiza Tosatt Eleoterio frisa que sentimentos contraditórios não significam que a decisão esteja errada, e sim que a pessoa está lidando com algo importante. Escutar esses sentimentos com paciência, em vez de reprimi-los, permite que a decisão seja tomada com mais clareza, e a escuta cuidadosa de um profissional pode ajudar a dar nome ao medo.
Como o acolhimento torna o desconhecido menos assustador?
O acolhimento muda a forma como o desconhecido é vivido. Quando a pessoa tem com quem conversar, alguém que acredita no que ela conta e serviços que informam sobre os caminhos possíveis, o futuro deixa de parecer um salto no vazio. Passos pequenos, como conversar com alguém de confiança, buscar informações e conhecer a rede de acolhimento social, já constroem um ponto de apoio.
Taiza Tosatt Eleoterio acrescenta que, em situações de risco, é importante contar com orientação de profissionais para pensar na segurança antes de qualquer mudança. Cada pessoa tem seu tempo, e respeitá-lo faz parte do cuidado. O recomeço após abuso não precisa acontecer de uma só vez, e cada passo, por menor que seja, merece ser reconhecido como conquista.
Dar o passo no próprio tempo, com apoio por perto
Considerando esse cenário, o medo do desconhecido ajuda a explicar por que sair de um relacionamento abusivo parece mais arriscado do que ficar. A previsibilidade do que já se conhece, as preocupações práticas, a dependência emocional e os sentimentos contraditórios se somam e tornam a decisão complexa, sem que isso signifique falta de coragem.
Taiza Tosatt Eleoterio indica que acolher esse medo, em vez de combatê-lo, é o primeiro passo para atravessá-lo. Com informação, escuta e uma rede de apoio atenta, o desconhecido deixa de ser um território temido e se torna um caminho que pode ser percorrido com segurança, no ritmo de cada pessoa, rumo a uma vida com mais liberdade e autoestima.


